domingo, 29 de agosto de 2010

Estrangeiro

Vejo um sinal.
Dedos trêmulos etílicos,
E já não vejo mais nada.
Tudo não passou de um esforço
Confuso,
Que acabou com um pigarro
Escrito.

Sinto o tempo,
Mas o tempo não quer
Me sentir;
Insiste que tudo não passou
De um instante,
E já tudo não é como antes.
Eu sou o tempo,
Mas o tempo é o nada
E o nada não quer existir
E existe;
Surge, ergue-se e levante,
Devora e aturde,
Seu mistério é não possuir
Mistério algum.

Ah, nada que vem sem tempo
Onde me escondo em mentiras,
Faces ocultas de um ser
Sem face.
Tudo fácil àquele em
Metamorfose,
Sempre a apagar borrões.
Triste sina de um
Homem,
Cuja face esconde,
Um modo de ser sem nome.





P.S.: Plebiscito pelo Limite da propriedade da TERRA de 1 à 7 de setembro, vamos por ordem no campo.



Confissões do Latifúndio

Por onde passei,
Plantei
a cerca farpada,
plantei a queimada.
Por onde passei,
plantei
a morte matada.
Por onde passei,
matei
a tribo calada,
a roça suada,
a terra esperada...
Por onde passei,
tendo tudo em lei,
eu plantei o nada.

Pedro Casaldáliga






quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Eterno Retorno

Se me pego assim
pensando
num caso angustiante,
seria o caso de rever,
neste caso, o quanto
antes.

Mas se passa e foi
feito,
nada o impedido,
deixa e aceita
o caso arrependido.







O eco

do jardim,
o homem chorava em soluços.
Sentia a tristeza das flores.

No abismo,
a criança ouvia um pastiche...
feliz de pirraça.

Moacir Eduão (Desespaços)






Ouroboros/Oroboros




341 - O peso mais pesado - E se um dia ou uma noite, um demônio se introduzisse na tua suprema solidão e te dissesse: "Esta existência, tal como a levas e a levaste até aqui, vai-te ser necessário recomeçá-la sem cessar, sem nada de novo, ao contrário, a menor dor, o menor prazer, o menor pensamento, o menor suspiro, tudo o que pertence à vida voltará ainda a repetir-se, tudo o que nela há de indizivelmente grande ou pequeno, tudo voltará a acontecer, e voltará a verificar-se na mesma ordem, seguindo a mesma impiedosa sucessão, esta aranha também voltará a aparecer, este lugar entre as árvores, e este instante, e eu também! A eterna ampulheta da vida será invertida sem descanso, e tu com ela, ínfima poeira das poeiras!"... Não te lançarias por terra, rangendo os dentes e amaldiçoando esse demônio? Ou já viveste um instante prodigioso, e então lhe responderias: "Tu és um deus; nunca ouvi palavras tão divinas!". Caso este pensamento te dominasse, talvez te transformasse e talvez te aniquilasse; perguntarias a propósito de tudo: "Queres isto outra vez e por repetidas vezes, até o infinito?". E pesaria sobre tuas ações com um peso decisivo e terrível! Ou então, como seria necessário que amasse a ti mesmo e que amasse a vida para nunca mais desejar nada além dessa suprema confirmação!

F. Nietzsche (A Gaia Ciência)

domingo, 22 de agosto de 2010

"Séc'los" de delírio

Que toda minha sina
seja despossuir-me,
desapropriar-me
de mim mesmo.


Divergência

(já contemplamos,
de mãos dadas,
um jardim florido.
hoje,
fitamos, tristonhos,
a bifurcação da estrada.)

Moacir Eduão