ADeusà Morte
O que fazes de tua vida,
que te escapa?
Qual rumo tomarás,
se não sabe onde chegar?
Por onde começar,
se amanhã terminará?
E o que não termina
pode nunca ter começado.
Para onde?
Não importa,
se o vento bate à
porta,
não quer saber quem dentro
está,
já vai entrando.
Segurar-se é puro engodo,
é desgastante;
logo amanhece,
não haverá,
corpo fenece e
tudo tende à retornar.
Chore, ria, cante e dance...
viver deve ser como morrer:
uma passagem,
transição em tuas andanças,
não mais que, uma viagem
sem nenhuma direção,
um caminhar que não se cansa.
O VOO DO GÊNIO
À atriz Eugênia Câmara
Um dia, em que na terra a sós vagava
Pela estrada sombria da existência,
Sem rosas - nos vergéis da adolescência,
Sem luz d'estrêla - pelo céu do amor;
Sentia as asas de um arcanjo errante
Roçar-me brandamente pela fronte,
Como cisne, que adeja sôbre a fonte,
Às vezes toca a solitária flor.
E disse então: "Quem és, pálido arcanjo!
Tu, que o poeta vens erguer do pego?
Eras acaso tu, que Milton cego
Ouvia em sua noite êrma de sol?
Quem és tu? Quem és tu?" - "Eu sou o Gênio",
Disse-me o anjo. "Vem seguir-me o passo,
Quero contigo me arrojar no espaço,
Onde tenho por c'roas o arrebol."
"Onde me levas, pois?..." "Longe te levo
Ao país ideal, terra das flôres,
Onde a brisa do céu tem mais amôres
E a fantasia - lagos mais azuis..."
E fui... e fui... ergui-me no infinito,
Lá onde o vôo d'águia não se eleva...
Abaixo - via a terra - abismo em trevas!
Acima - o firmamento - abismo em luz!
"Arcanjo! Arcanjo! que ridente sonho!"
- "Não, poeta, é o velado paraíso,
Onde os lírios mimosos do sorriso
Eu abro em todo o seio, que chorou,
Onde a loura comédia canta alegre,
Onde eu tenho o condão do gênio infindo.
Que a sombra de Molière vem sorrindo
Beijar na fronte, que o Senhor beijou..."
"Onde me levas mais, anjo divino?"
- "Vem ouvir, sôbre as harpas inspiradas,
O canto das esferas namoradas,
Quando eu encho de amor o azul dos céus,
Quero levar-te das paixões nos mares,
Quero levar-te a dédalos profundos,
Onde refervem sóis... e céus... e mundos...
Mais sóis... mais mundos, e onde tudo é meu..."
"Mulher! Mulher! Aqui tudo é volúpia:
A brisa morna, a sombra do arvoredo,
A linfa clara, que murmura a mêdo,
A luz que abraça a flor e o céu ao mar.
Ó princesa, a razão já se me perde,
És a sereia da encantada Cila,
Anjo, que transformaste-te em Dalila,
Sansão de novo te quisera amar!
Porém não paras neste vôo errante!
A que outros mundos elevar-me tentas?
Já não sinto o soprar de auras sedentas
Nem bebo a taça de um fogoso amor,
Sinto que rolo em bárbaros profundos...
Já não tens asas, águia da Tessália,
Maldição sôbre ti... tu és Onfália,
Ninguém te ergue das trevas e do horror.
"Porém, silêncio! No maldito abismo,
Onde caí contigo, criminosa,
Canta uma voz, sentida e maviosa,
Que arrependida sobe a Jeová!
Perdão! Perdão! Senhor, pra quem soluça.
Talvez seja algum anjo peregrino...
... Mas não! inda eras tu, gênio divino,
Também sabes chorar, como Eloá!
"Não mais; ó serafim! Suspende as asas!
Que, através das estrêlas arrastado,
Meu ser arqueja louco, deslumbrado,
Sôbre as constelações e os céus azuis.
Arcanjo! Arcanjo! basta... Já contigo
Mergulhei das paixões nas vagas cérulas...
Mas nos meus dedos - já não cabem - pérolas -
Mas na minh'alma - já não cabe - luz...
Recife, maio de 1866.
Castro Alves (Espumas Flutuantes)
Gustav Klimt - "A vida e a morte"