terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Devore-me

Antropofagia

Nestas terras, antes
dos outros chegar,
tocados por loucos aos mares,
em projeções racionais, sintágmas
e suas leis formais,
havia uns loucos cá.

Só que esses loucos, tão
soltos em seus muitos e poucos,
digeriam-se às doses,
sem dar ou tomar em desgaste,
sem ânsia, pressa ou desfastio.

Revela teu costume, louco homem,
que se não soltas tu
solto eu
e não irás querer soltar-se
sem arrancar-me um pedaço,
não é,
todo homem?

Só poucos, aos poucos que mastiga,
permite, percebe e demora.
É que aos loucos de cá
devorar
é a única forma
de se perpetuar,
por isso ele devora.

Vai comer, vai engasgar,
vai sorrir ao vomitar, mas
não se permite parar,
não pode, não deve,
não deveria.
Se pára tonteia, se pára
esperneia;
não sabe e não quer saber,
é lei do antropófago não parar
de comer,
se não come é comido
e não serei eu
quem não irá querer comer,
comerei porque eu vivo.
Eu como
e também há de comer,
se quiser sobreviver - devorará sem castigo.

Como tua sina é só se querer,
se desejar e não mais parar;
tua sina, se assim prefere,
é devorar aos outros ao se devorar
e ao devorando-se a todos devorará.

Que não se entendam mal, homens,
pois nunca se entenderão.

George D.T.






domingo, 3 de outubro de 2010

Gravidade

ADeusà Morte



O que fazes de tua vida,
que te escapa?
Qual rumo tomarás,
se não sabe onde chegar?
Por onde começar,
se amanhã terminará?
E o que não termina
pode nunca ter começado.


Para onde?
Não importa,
se o vento bate à
porta,
não quer saber quem dentro
está,
já vai entrando.

Segurar-se é puro engodo,
é desgastante;
logo amanhece,
não haverá,
corpo fenece e
tudo tende à retornar.


Chore, ria, cante e dance...
viver deve ser como morrer:
uma passagem,
transição em tuas andanças,
não mais que, uma viagem
sem nenhuma direção,
um caminhar que não se cansa.












O VOO DO GÊNIO

À atriz Eugênia Câmara

Um dia, em que na terra a sós vagava
Pela estrada sombria da existência,
Sem rosas - nos vergéis da adolescência,
Sem luz d'estrêla - pelo céu do amor;
Sentia as asas de um arcanjo errante
Roçar-me brandamente pela fronte,
Como cisne, que adeja sôbre a fonte,
Às vezes toca a solitária flor.

E disse então: "Quem és, pálido arcanjo!
Tu, que o poeta vens erguer do pego?
Eras acaso tu, que Milton cego
Ouvia em sua noite êrma de sol?
Quem és tu? Quem és tu?" - "Eu sou o Gênio",
Disse-me o anjo. "Vem seguir-me o passo,
Quero contigo me arrojar no espaço,
Onde tenho por c'roas o arrebol."

"Onde me levas, pois?..." "Longe te levo
Ao país ideal, terra das flôres,
Onde a brisa do céu tem mais amôres
E a fantasia - lagos mais azuis..."
E fui... e fui... ergui-me no infinito,
Lá onde o vôo d'águia não se eleva...
Abaixo - via a terra - abismo em trevas!
Acima - o firmamento - abismo em luz!

"Arcanjo! Arcanjo! que ridente sonho!"
- "Não, poeta, é o velado paraíso,
Onde os lírios mimosos do sorriso
Eu abro em todo o seio, que chorou,
Onde a loura comédia canta alegre,
Onde eu tenho o condão do gênio infindo.
Que a sombra de Molière vem sorrindo
Beijar na fronte, que o Senhor beijou..."

"Onde me levas mais, anjo divino?"
- "Vem ouvir, sôbre as harpas inspiradas,
O canto das esferas namoradas,
Quando eu encho de amor o azul dos céus,
Quero levar-te das paixões nos mares,
Quero levar-te a dédalos profundos,
Onde refervem sóis... e céus... e mundos...
Mais sóis... mais mundos, e onde tudo é meu..."

"Mulher! Mulher! Aqui tudo é volúpia:
A brisa morna, a sombra do arvoredo,
A linfa clara, que murmura a mêdo,
A luz que abraça a flor e o céu ao mar.
Ó princesa, a razão já se me perde,
És a sereia da encantada Cila,
Anjo, que transformaste-te em Dalila,
Sansão de novo te quisera amar!

Porém não paras neste vôo errante!
A que outros mundos elevar-me tentas?
Já não sinto o soprar de auras sedentas
Nem bebo a taça de um fogoso amor,
Sinto que rolo em bárbaros profundos...
Já não tens asas, águia da Tessália,
Maldição sôbre ti... tu és Onfália,
Ninguém te ergue das trevas e do horror.

"Porém, silêncio! No maldito abismo,
Onde caí contigo, criminosa,
Canta uma voz, sentida e maviosa,
Que arrependida sobe a Jeová!
Perdão! Perdão! Senhor, pra quem soluça.
Talvez seja algum anjo peregrino...
... Mas não! inda eras tu, gênio divino,
Também sabes chorar, como Eloá!

"Não mais; ó serafim! Suspende as asas!
Que, através das estrêlas arrastado,
Meu ser arqueja louco, deslumbrado,
Sôbre as constelações e os céus azuis.
Arcanjo! Arcanjo! basta... Já contigo
Mergulhei das paixões nas vagas cérulas...
Mas nos meus dedos - já não cabem - pérolas - 
Mas na minh'alma - já não cabe - luz...

Recife, maio de 1866.

Castro Alves (Espumas Flutuantes)





Gustav Klimt - "A vida e a morte"

domingo, 12 de setembro de 2010

Ideal

Como sou?

Ela me vê.
Oh, céus,
e como me vê.
Então ela vê?
Crê como poesia meu traço.
Emotivo?
Demasiado.
Ah! sou tão lasso.
Se ela soubesse...
Sou tão lasso...
Melhor não saber.
Minha sensibilidade?
De um paquiderme.
Não me acho,
E o meu rastro?
De um verme.
Quão nefasto!

Mas "sou o que sou,
Sem mentiras pra mim";
Custo entender.
Minhas palavras?
Um fosso.
Vez em quando um festim,
Que assusta,
Mas não fere;
Sempre vaga,
Às vezes, célebre...

Sou assim, uma caricatura;
Trôpego e andarilho,
Na verdade, um menino,
Ou melhor, uma criança
Com os lábios melados
De esperança.
Minha arte é traquina:
Equilibrar-me num caos.
Convido-te a dançar, menina.

Mas logo te aviso:
A vida é uma trama,
Urdidura insana;
Tem que torcer,
Se desfazer e tecer,
Tem que ser aranha.
E agora, onde está
Minha ética?
Profana!

George D.T.



 Abelha rainha! Me farta.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Encontros Perdidos

Desconexo

O empenho que aplico,
Para conhecimento do
Outro,
É reflexo do esforço
Que faço por
Compreender-me.

George D.T.
    ____,,____

Ambivalência

Um lado é violento
Ao propor o
Diálogo.
O outro repudia a
Violência,
Ditado pela maioria.

Não é o Jovem
Consumindo a
Loucura,
É esta o
Consumindo.
Que desatino!
Tirania de ambos
Os lados.

George D.T.

Desalento

meus passos
desvinculados da estrada
sem apego trafegam-na.
sem perdê-la
abandonam-na

tantos cúmplices somam
tortuosidade à estrada.

Moacir Eduão (Desespaços).







Não me engano, desiludir-me não me levará à lugar algum,
que eu já não tenha ido, ou melhor,
 me levará à lugar nenhum.

domingo, 29 de agosto de 2010

Estrangeiro

Vejo um sinal.
Dedos trêmulos etílicos,
E já não vejo mais nada.
Tudo não passou de um esforço
Confuso,
Que acabou com um pigarro
Escrito.

Sinto o tempo,
Mas o tempo não quer
Me sentir;
Insiste que tudo não passou
De um instante,
E já tudo não é como antes.
Eu sou o tempo,
Mas o tempo é o nada
E o nada não quer existir
E existe;
Surge, ergue-se e levante,
Devora e aturde,
Seu mistério é não possuir
Mistério algum.

Ah, nada que vem sem tempo
Onde me escondo em mentiras,
Faces ocultas de um ser
Sem face.
Tudo fácil àquele em
Metamorfose,
Sempre a apagar borrões.
Triste sina de um
Homem,
Cuja face esconde,
Um modo de ser sem nome.





P.S.: Plebiscito pelo Limite da propriedade da TERRA de 1 à 7 de setembro, vamos por ordem no campo.



Confissões do Latifúndio

Por onde passei,
Plantei
a cerca farpada,
plantei a queimada.
Por onde passei,
plantei
a morte matada.
Por onde passei,
matei
a tribo calada,
a roça suada,
a terra esperada...
Por onde passei,
tendo tudo em lei,
eu plantei o nada.

Pedro Casaldáliga






quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Eterno Retorno

Se me pego assim
pensando
num caso angustiante,
seria o caso de rever,
neste caso, o quanto
antes.

Mas se passa e foi
feito,
nada o impedido,
deixa e aceita
o caso arrependido.







O eco

do jardim,
o homem chorava em soluços.
Sentia a tristeza das flores.

No abismo,
a criança ouvia um pastiche...
feliz de pirraça.

Moacir Eduão (Desespaços)






Ouroboros/Oroboros




341 - O peso mais pesado - E se um dia ou uma noite, um demônio se introduzisse na tua suprema solidão e te dissesse: "Esta existência, tal como a levas e a levaste até aqui, vai-te ser necessário recomeçá-la sem cessar, sem nada de novo, ao contrário, a menor dor, o menor prazer, o menor pensamento, o menor suspiro, tudo o que pertence à vida voltará ainda a repetir-se, tudo o que nela há de indizivelmente grande ou pequeno, tudo voltará a acontecer, e voltará a verificar-se na mesma ordem, seguindo a mesma impiedosa sucessão, esta aranha também voltará a aparecer, este lugar entre as árvores, e este instante, e eu também! A eterna ampulheta da vida será invertida sem descanso, e tu com ela, ínfima poeira das poeiras!"... Não te lançarias por terra, rangendo os dentes e amaldiçoando esse demônio? Ou já viveste um instante prodigioso, e então lhe responderias: "Tu és um deus; nunca ouvi palavras tão divinas!". Caso este pensamento te dominasse, talvez te transformasse e talvez te aniquilasse; perguntarias a propósito de tudo: "Queres isto outra vez e por repetidas vezes, até o infinito?". E pesaria sobre tuas ações com um peso decisivo e terrível! Ou então, como seria necessário que amasse a ti mesmo e que amasse a vida para nunca mais desejar nada além dessa suprema confirmação!

F. Nietzsche (A Gaia Ciência)

domingo, 22 de agosto de 2010

"Séc'los" de delírio

Que toda minha sina
seja despossuir-me,
desapropriar-me
de mim mesmo.


Divergência

(já contemplamos,
de mãos dadas,
um jardim florido.
hoje,
fitamos, tristonhos,
a bifurcação da estrada.)

Moacir Eduão